quinta-feira, 22 de setembro de 2011

E agora, Dona Dilme?

A Presidenta Dilme Roussef está com um problema sério:

Ontem, 21/09/2011, A Câmara dos Deputados rejeitou  a criação da Contribuição Social para a Saúde (CSS), também conhecida como "a nova CPMF"





Não bastasse isto, a Justiça suspendeu a cobrança do IPI majorado.


http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2011/09/noticias/a_gazeta/economia/969631-justica-impede-alta-do-ipi-dos-carros-importados.html

Em Brasília deve ter gente do Governo pensando: "Meu Deus, será que agora vamos ter que aprender a administrar?"

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Tem coisa que é de casa





Por Aline Dias:


Eu sou filha do seu Zedu e da dona Rita Eliza. Eles me ensinaram que mentira tem perna curta, que honestidade é princípio e que o nome da gente é o bem mais precioso que a gente tem. Meu pai me ensinou que quando a gente faz as coisas do jeito certo, sem passar por cima de ninguém, a gente vai acabar se dando bem no final e que quem joga sujo se ferra sozinho. Ele disse que não precisa a gente fazer absolutamente nada com gente que joga sujo porque as pessoas acabam se estrepando sem a gente precisar se mexer pra isso. E o melhor, se a gente não joga sujo a gente fica com a consciência tranqüila e consegue se olhar no espelho, manter a cabeça erguida e continuar vivendo.

Eu sou filha do seu Zedu e da dona Rita Eliza e ela me disse que quando a gente não tem nada de bom pra falar é melhor ficar quieto.
Eu só queria dizer que eu sou filha do seu Zedu Coelho e da dona Rita Eliza de Fonseca e Oliveira e que os dois me ensinaram que existe pecado, e que mesmo que eu não queira acreditar em pecado os atos da gente sempre tem consequencias. E que quem banca as conseqüências sou eu. (seu Zedu diz que não existe essa de vai doer mais em mim do que em você, que se você faz merda é em você que dói e pronto).

Eu sou neta da dona Euza, do seu Zé Dias, do seu Amphilóphio e da dona Nerly e eles me ensinaram a querer sempre ajudar a quem estiver precisando, a escrever, a ler, a tabuada e como se passa bife.

Eu olho pra dona Rita, pro seu Zedu, pra dona Euza e pra dona Nerly de cabeça erguida. Mesmo estabanada e falha, eu aprendi o que eles me ensinaram. E mesmo dormindo tarde, eu durmo sem qualquer culpa. 

sábado, 27 de agosto de 2011

Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 01/1999




RESOLUÇÃO CFP N° 001/99
DE 22 DE MARÇO DE 1999


"Estabelece normas de atuação
para os psicólogos em relação à
questão da Orientação Sexual"

O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de
suas atribuições legais e regimentais,

CONSIDERANDO que o psicólogo é um profissional da saúde;

CONSIDERANDO que na prática profissional, independentemente da área em que esteja atuando, o psicólogo é freqüentemente interpelado por questões ligadas à sexualidade.

CONSIDERANDO que a forma como cada um vive sua sexualidade faz parte da identidade do sujeito, a qual deve ser compreendida na sua totalidade;

CONSIDERANDO que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão;

CONSIDERANDO que há, na sociedade, uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente;

CONSIDERANDO que a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações;

RESOLVE:

Art. 1° - Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e bem-estar das pessoas e da humanidade.

Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou  práticas homoeróticas.

Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou  práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.

Art. 5° - Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 6° - Revogam-se todas as disposições em contrário.


Brasília, 22 de março de 1999.

ANA MERCÊS BAHIA BOCK
Conselheira Presidente

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Quinca Cigano


(A Crônica de Rubem Braga, do Livro A Borboleta Amarela)
Me perdoem a inconfidência,mas não pude resistir a colocar esta crônica, que diz de minha família, por aqui.
Também não revisei e colei do jeitinho que copiei.



"Entre os números que contam a grandeza do Município de Cachoeiro de Itapemirim há este, capaz de espantar o leitor distraído: 25.379 pios de aves anualmente. 

Não, a Prefeitura não espalhou pela cidade e equipes de ouvidores municipais, encarregados de tomar nota cada vez que uma avezinha pia. Trata-se de pios feitos por caçadores. E quem os faz e uma família de caçadores de ouvido fino - os Coelho. Três gerações moram na mesma e linda ilha, onde o rio se precipita naquele encachoeirado, ou cachoeiro, que deu o nome à cidade.

Trata-se de um artesanato sutil; não lhe basta a perícia técnica de delicados torneiros que faz, desses pios bem acabados, pequenas obras de arte; exige uma sensibilidade que há de estar sempre aguçada. que e uma arte assassina; e na verdade, incontáveis milhares de do Brasil e da América do Sol já morreram por acreditar, em um mo de fome ou de amor, naqueles pios imaginados entre os murmúrios do Itapemirim.

Dizem que os Coelhos fazem até, em segredo, pios para caçar mulheres. Famosa caçada é essa, em que não raro é o caçador a presa da caça. Ainda que eu seja Coelho pela parte de mãe, devo ser de outro visto que nunca me deram um pio desses. Nem quero. 

De minha família acho que saí mais ao tio segundo Quinca Cigano nascido na lavoura mas vivido pelos caminhos, e que vivia de barganhar. Barganhava uma coisa por outra, e depois mais outra; e não sei o arrumava, que depois de muito andar pelo mundo, voltava sempre ao Cachoeiro, tendo apenas de seu um cavalo magro e triste. Chegava se de noite, como um ladrão; e, como um ladrão, dava a volta por cima do morro e ficava parado, no escuro, atrás da tela da cozinha, esperando. Quando minha mãe ia à cozinha fazer o último café, Quinca Cigano lá do escuro, murmurava seu nome. Ela se assustava; mas ele logo dizia, com sua voz que a poeira dos caminhos e a. cachaça das vendinhas faziam cada vez mais rouca: “É Quinca".

Entrava; recebia, calado, comida para ele e seu cavalo. Tomava banho, dormia - e de manhã cedo, de roupa limpa e barba feita, estava na sala de visitas conversando com meu pai. Movendo lentamente cadeira de balanço, meu pai lhe dava um cigarro de palha, e perguntava:Então, Quinca? Ele dizia que ia voltar para a família, para o sítio; agora queria derrubar aquela mata que dava para o sítio do Sobreira; formar um cafezal; ia fazer uma manga maior para os porcos; e comentava o preço do arroz e a queda das chuvas. Meu pai o ouvia, muito sério. Sabia que Quinca era sincero naquele momento; e também que alguns dias depois ele sumiria outra vez pelo mundo, no trote do seu cavalo, o cigano solitário.Feito Quinca Cigano, eu também só tenho caçado brisas e tristeza. Mas tenho outros pesos na massa de meu sangue. Estou cansado; quero parar, engordar, morrer. Que os Coelho da ilha me arranjem um pio, não para mulher, mas para caçar sossego. Deve ser um pio triste, mas tão triste que, a gente piando ele, só escute depois, nesse mato inteiro, um grande silêncio, o silêncio de todos os bichos tristes. Eu não quero, como ca Cigano, sair pelo mundo caçando passarinho verde. Passarinho; não existe; e quem disse que viu, ou ensandeceu ou mentiu."

Maio, 1951

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Hoje eu assisti a um parto


Há dias em que a gente acorda meio “não sei”.

Nesses dias a gente sonha com o sol e quando de manhã abre a janela e ele esta lá, esbraveja, desejando a chuva.

O extrato bancário não está vermelho, o almoço foi divino, os filhos não fizeram pirraça, a saúde está boa, as prestações e o condomínio estão em dia, tem gasolina no carro (modesto, porém novo), os amigos desejam nossa companhia, a mulher está linda, cheirosa e carinhosa, mas mesmo assim nada está bom.

A filha mais velha formada em Universidade Federal e nunca ficou um dia sem trabalho, a mais nova, também na Federal, escolhe o estágio que quer fazer, o filho mais velho homenageado como aluno destaque no Colégio e os mais novos inteligentíssimos, carinhosos, amigos. Mas mesmo assim nada está bom.

O “não sei” vai piorando à medida em que não conseguimos identificar sua fonte.

Hoje eu acordei “não sei”.

Saio de uma reunião em que acredito ter feito um bom negócio e tenho a sorte de vislumbrar o que mais gosto no Porto de Vitória: o movimento de rotação de um navio, buscando saída na pequena baia. Mas aquele “não sei” continua apertando o peito e a garganta.



Olhando o navio me sinto o próprio, buscando uma saída de não sei de que para não sei onde, sem rebocador algum para ajudar.

Me apego à fé, mirando no Convento da Penha e decido, do nada, fazer uma visita de improviso a uma amiga que, imagino eu, deve estar numa angústia maior ainda, só que com motivos de sobra para tanto.


Ela, como de costume, me recebe com gentileza acima de meu mérito e me permite saborear um verdadeiro espetáculo, uma explosão de vida, parte de seu trabalho: a chegada de um ente desejado no seio de uma família.

O pai apreensivo, a mãe tensa, um corre-corre frenético nos corredores e o parto finalmente ocorre. Minha amiga entrega nos braços de um casal um bebê belíssimo e, quis Deus assim, com os traços físicos bem semelhantes aos dos novos pais.

Minha amiga não é enfermeira, nem parteira, mas Juíza. Juíza da Vara da Infância e da Juventude e entregou em adoção um bebê a um casal, que o viu pela primeira vez naquele preciso momento.

Eu estava lá e, manteiga derretida que sou, não pude sequer conter as lágrimas, participando de uma emoção que contagiou não só os novos pais, que não conseguiam disfarçar o tamanho da felicidade, mas comissários, serventuários, advogados, serventes, promotor de justiça, enfim, todos os que estavam no local e tinham pelo menos noção da dimensão daquele ato e de suas consequências.

Hoje eu assisti a um parto e acabei sentindo uma pontinha de vergonha por me permitir a ficar "não sei" tendo recebido na minha vida tanta coisa boa e de graça.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Viva dignamente: você está sendo "filmado" pelo seu filho.


Eu, particularmente, nunca tive a menor dúvida de que os filhos aprendem mais com o que observam da gente do que com o que dizemos para eles.

Não basta ser pai, nem tampouco participar. É preciso ser humano de verdade e ter a precisa noção de que estamos sendo observados, mesmo – e principalmente – quando estamos distraídos.

O vídeo dá a medida. Assistam com carinho e boa reflexão.


Vídeo enviado pelo meu querido amigo João Luiz Traváglia.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Tiros, Juízes e Estado



Vamos deixar claro desde o início: não sou Magistrado, nem falo aqui da tribuna de advogado. Falo aqui como cidadão comum, daqueles que tem a precisa noção do que quis dizer Aristóteles ao prenunciar que o homem fora do convívio social ou é uma besta ou um deus.

Tenho a plena consciência, também, que o Estado é a Nação que se organiza politicamente, detendo controle sobre um determinado território. Estado é união de pessoas: é gente com propósito comum de organizar a própria vida social.

Nossa Nação optou por dividir as funções estatais em três, que se completam de tal forma que uma não pode existir sem a outra. Grosso modo falando, a alguns é acometida a função de criar as regras, a outros de fazer cumprir essas regras e a outros ainda a de controlar o cumprimento delas. Legislativo, Executivo e Judiciário são, assim, nada mais que a própria sociedade, estruturada em órgãos, ou seja, nós cidadãos, organizados.

Daí que acordamos hoje atordoados com a notícia de que uma Juíza foi assassinada.

Imediatamente começa o disse-me-disse: foram 20 ou 21 tiros? Ela pediu ou não pediu proteção? Ela relatara ou não ameaças anteriores?

Absoluta e absurdamente irrelevantes a maior parte das pseudo questões suscitadas em todo o dia de hoje. 

O fato é que o Estado não pode, sob qualquer hipótese, permitir que a morte de um Juiz se transforme num disse-me-disse.

A resposta ao fato tem que ser séria e célere, impondo-se rapidez na apuração e seriedade no tratamento do caso, como se nada mais relevante existisse no mundo.

E não me chamem de desumano ou insensível quando digo que a apuração do homicídio de um Juiz deve merecer atenção ainda mais acurada do que quando a vítima é um cidadão comum.

Quando um Juiz leva um tiro não é ele o atingido, mas toda a ordenação de poder e controle da sociedade. A sociedade é alvejada. Um órgão (vital) é extirpado.

Um tiro num Juiz é um tiro no próprio Estado, comprometendo a própria organização social e prenunciando um verdadeiro caos.

Não foi a Juíza a vítima do tiro que hoje fez o Brasil acordar de luto. A vítima sou eu, que passo a não ter certeza se o convívio social é possível e começo a pensar em me defender de fantasmas. Não me espantaria ver, a partir de agora, Quixote atacando mais ventos que moinhos.

Assim, queridos, não é que não seja relevante o homicídio de um cidadão comum, mas me preocupo deveras quando Estado que permite que um Juiz seja morto, pois vejo neste ato (ainda que omissivo) um tiro na própria cabeça.

A tristeza maior vem quando a gente pensa, como já disseram nas redes sociais, que se até os magistrados são executados em plena rua, o que esperar o homem comum? 

Só Deus!

PS: Mais sobre o tema no brilhante “post” da Juíza da Vara da Infância e da Juventude de Vila Velha, cuja leitura, bem mais profunda do que as linhas acima, considero indispensável, sendo seguramente o mais acertado que já se escreveu sobre o assunto. Vale a pena a leitura das palavras da Dra. Patrícia Neves: http://noscaminhosdainfancia.blogspot.com/2011/08/quando-morte-e-companheira-o-estado.html




Nos Caminhos da Infância: Quando a Morte é a Companheira - O Estado assassin...

Nos Caminhos da Infância: Quando a Morte é a Companheira - O Estado assassin...: "Ao ler matéria postada nesta data na imprensa sobre a morte da Juíza Patrícia Lourival Acioli, da 4a. Vara Criminal de São Gonçalo poderia t..."

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Você sabe com que você está falando?

Numa palestra do professor Mário Sérgio Cortella podemos ter uma precisa dimensão de quem realmente somos.


O vídeo tem quase 10min de duração, mas quem já pode assistir não se arrependeu.


Confira: 


  

sábado, 30 de julho de 2011

Como instalar o Money 99BR no Windows 7

Seguinte: informática não é minha praia, mas depois de quebrar muito a cabeça tentando achar um gerenciador financeiro decente que rodasse no Windows 7, sem sucesso, decidi apelar para o velho e bom Money 99.

Qual não foi minha surpresa, no entanto, ao perceber que ele simplesmente não roda no 7...

Daí tome rezar para São Google até que minhas preces foram atendidas.

O velho Braga dizia "fiquei tão feliz que me nasceram uma flor na lapela e uma namorada no braço"

Eu digo: fiquei tão feliz que resolvi partilhar com vocês o passo a passo que obtive no link abaixo e que realmente funciona.

1) primeiramente, você deverá copiar todo o conteúdo do seu CD de instalação do Money99 para a raiz do seu HD (C:) numa pasta nomeada "MONEY". 

2) Após isto, localize e copie todo o conteúdo da pasta "Money99" para a raiz da pasta "MONEY" que voce criou. Copie também o arquivo "acmsetup.exe" que está dentro da pasta "Setup" para a raiz da pasta "MONEY". 

Atenção: copie tudo mantendo as pastas e arquivos em seus locais originais. Após isto feche todas as janelas do windows e execute o prompt do DOS. Na janela Command Prompt digite as seguintes linhas exatamente como abaixo:

cd\   [tecle ENTER]
c:\>money\acmsetup.exe /t money99.stf   [tecle ENTER]

Garanto que se todas as instruções forem corretamente executadas a instalação funcionará. 

Consegui esta maravilha no link abaixo:


Valeu, gente.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Livre arbítrio e consequências

Vídeo feito sob encomenda da inglesa  Transport Accident Commission. 

Assista e tire suas próprias conclusões, afinal, você é livre para fazer o que bem entender, sem esquecer que tudo na vida tem um preço:





sábado, 9 de julho de 2011

OAB - A PROVA PROVA?


OAB – A PROVA PROVA?

Há alguns dias a divulgação do resultado do último “Exame de Ordem” causou verdadeira comoção não só no meio jurídico, mas em toda sociedade. O motivo? De 106.891 candidatos inscritos, apenas 12.534 conseguiram pontuação mínima para ingressar nos quadros da OAB, como noticiou o portal G1. (http://migre.me/5d4pW).

Os números, de fato, são assustadores, pois o índice de reprovação (88%) não é animador.

É relevante dizer que o candidato não concorre com ninguém a não ser com ele mesmo e a aprovação significa que ele foi capaz de alcançar a pontuação mínima (acertar metade das questões propostas).

Desde que recebeu o formato atual, decorrência do novo Estatuto da Advocacia e da OAB, a prova vem sendo alvo dos mais diversos comentários, que aumentam a cada divulgação de resultado. Há quem diga que a prova não prova nada, outros que o ensino jurídico anda fraco.

Eu mesmo sustento que a simples necessidade de uma prova de proficiência, aplicada após a conclusão de um curso superior, já é um sintoma inequívoco de que há algo de podre (e que não é necessariamente no Reino da Dinamarca), mas foi o Senador Cristovam Buarque quem, na minha opinião, colocou o dedo na ferida, quando afirmou, pelo Twitter: “@Sen_Criostovam: A responsabilidade pela vergonha do exame da OAB está na educação de base dos candidatos.” (http://migre.me/5dknK).

Certa feita pedi, uma prova numa prova aplicada num quinto período do curso de Direito de uma faculdade particular da Grande Vitória, que os alunos me respondessem quais as prerrogativas do Conselho de Administração das Sociedades Anônimas e, tendo ficado espantado pelo fato de que pouquíssimos alunos responderam à questão, questionei os motivos, já que, não bastasse a simplicidade da pergunta, a prova era feita com consulta à legislação.

A resposta foi mais espantosa ainda: “professor, nós não sabemos o que significa prerrogativa”.

Não é mesmo possível o ensino do Direito a quem não tem ferramentas para compreender os textos jurídicos, que deveriam ter sido fornecidas antes que os alunos tivessem chegado à Universidade.

Assim é que mesmo que a prova da OAB não prove que o postulante tem condições de exercer a advocacia, os resultados tem demonstrado que há muito a ser feito com relação ao ensino, desde a base.

Não se forma profissionais sem, antes, formar cidadãos que saibam, pelo menos, entender o que se lê.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Entre erros e acertos

ENTRE ERROS E ACERTOS



Conheço dois tipos de pessoas: as que aprendem com os próprios erros e as inteligentes.

E não me venham com essa estória de que há os que nunca aprendem, pois isso é mentira da grossa. O aprendizado sempre ocorre, queiram ou não, ainda que seja só o suficiente para não enfiar o dedo na tomada ou coisas do gênero.

Pode enfiar o dedo na tomada e sentir o choque? Pode!

Mas pode, também, acreditar que aquilo incomoda e não fazer.

Pode observar a dor alheia para não chorar? Pode, mas também pode chorar, despertando a dor alheia.

Em alguns casos o erro vira acerto.

Spencer, que mexia num emissor de microondas sem qualquer proteção, sentiu derreter uma barra de chocolates que trazia no bolso. Pronto! Estava inventado o forno de microondas.

Harry Coover trabalhava numa lente de precisão para armas, mas a substância que tinha descoberto, o cianocrilato, não servia para isso porque grudava em tudo e não soltava mais. O jeito foi usar aquilo para inventar o “super bonder”.

Podia eu falar, também, sobre o teflon, o raio X, a sacarina e de um monte de coisas, mas estas linhas não são para isso, mas só para dizer que erro ou acerto é só uma questão de ponto de vista.

Você pode reclamar que seu chocolate derreteu ou patentear o forno de microondas e ganhar dinheiro suficiente para comprar quantos chocolates quiser. Pode, também, aprender a quebrar átomos para produzir energia limpa ou fabricar uma bomba letal.

No final, é sempre uma questão de escolha: você pode aprender errando ou com o erro alheio. Pode até tirar proveito do erro e transformá-lo em acerto.

Como diria o velho Raul, "faz o que tu queres, pois é tudo da lei".

Só vou dizer uma coisa: fazer sempre a mesma coisa do mesmo jeito e esperar um resultado diferente é a melhor definição de loucura que conheço.
  

sexta-feira, 1 de julho de 2011

La salud del comandante Chávez*

“El Comandante Hugo Chávez se encuentra en Cuba en grave estado de salud por causa de uma bactéria. Los invitamos a todos a orar por la salud de la bactéria, que resista a los antibióticos y que sea fuerte para que pueda culminar com êxito su misión.”


*Pitaco alheio enviado pelo amigo Carlos Augusto de Vargas.

sábado, 25 de junho de 2011

Sobre Cazuza.


De Cazuza, o Filme, tiramos uma grande lição: de uma forma ou de outra sempre pagamos o preço exato por nossos atos.

O filme, baseado num livro escrito pela mãe do poeta, narra sua vida e revela fatos interessantíssimos como, por exemplo, a existência de um pai quase inexistente e de uma mãe extremamente devoradora, que bancava todos os atos do filho “exagerado”.

O pai, sem tempo para o filho e a mulher, homem de negócios importantíssimo que era (e ainda é) não consegue perceber a formação de uma relação quase incestuosa entre mãe e filho. Essa, em nome de um suposto amor, aceita tudo, admite tudo, e, para piorar, ainda tenta pagar as contas de seu “maior abandonado”. Quando ele decide morar sozinho é a prestimosa mãe quem vai se preocupar com a limpeza e arrumação do apartamento, que, aliás, é custeado com o dinheiro do pai.

E assim Cazuza segue, podendo tudo, sem limites, sem forma e sem decisão. Não sabe se é do rock ou é do samba, não sabe se gosta de meninos ou meninas, então se relaciona com os dois, sem culpas, verdadeiro “beija-flor”, sem compromisso, “sem pódio de chegada ou beijo de namorada”, apenas um cara. A permissividade da mãe e a quase inexistente figura paterna são o terreno fértil para isto.

Verdadeiro beija-flor, disposto a voar livremente e experimentando apenas o mel da vida, nunca precisou pagar por nada. Quando Lucinha encontra uma sacola de maconha em seu apartamento e joga fora é alertada pelo filho de que aquilo custava dinheiro. Sua resposta? “Eu pago”. Sequer a gasolina de seu próprio carro precisava pagar e, quando esta acabava Cazuza não precisa caminhar até o posto mais próximo, bastava um telefonema que a mãe se prontificava a levar para ele.

Mas Cazuza pagou um preço alto pelos seus atos, pagou com juros tudo aquilo que se negou a pagar ao longo da vida: pagou com a própria vida, pois não há ilusões, pois na verdade tudo na vida tem um preço, pois na verdade “o tempo não para”.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Ética

OU QUANDO A RAPOSA TOMA CONTA DO GALINHEIRO

"A ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta".(VALLS, Álvaro L.M. O que é ética. 7a edição Ed.Brasiliense, 1993, p.7)

Achei no site Mundo dos Filósofos um quadrinho sobre a ética e gostaria de compartilhar com vocês:

Ética Normativa
Ética Teleológica
Ética Situacional
Ética Moral
Ética Imoral
Ética Amoral
Baseia-se em princípios e regras morais fixas
Baseia-se na ética dos fins: 
"Os fins justificam os meios".
Baseia-se nas circunstâncias. Tudo é relativo e temporal.
Ética Profissional e Ética Religiosa: 
As regras devem ser obedecidas.
Ética Econômica: 
O que importa é o capital.
Ética Política: 
Tudo é possível, pois em política tudo vale.
http://migre.me/56zrK

A esta altura já dá para perceber a relação umbilical entre ética e moral, até porque, dizem os doutos, a morale latina teria no grego ethos o seu equivalente. Há que defenda que a ética, em verdade, é o estudo do comportamento humano sob o ponto de vista da moral.

Ouso eu dizer que a postura ética desejável por toda a sociedade é aquela segundo a qual o respeito às diferenças tem que prevalecer sobre os desejos do indivíduo, já que concebo a ética como um conjunto de valores morais e princípios que determinam a conduta do próprio sujeito.

A ética de um sujeito o acompanha em todas as suas ações, nos mais diversos ambientes, sendo uma característica pessoal marcante e que se reflete em todas as suas relações, nos mais diversos ambientes. Quem é ético nos negócios certamente o é na família, na política, no esporte, enfim, até embaixo d’água. O mesmo ocorre em sentido contrário. Quem não é ético em um dos setores de sua vida, não o é nos demais.

Recentemente o Pastor Oliveira de Araújo, da Primeira Igreja Batista de Vitória e Presidente da Convenção Batista do Estado do Espírito Santo teve uma brilhante ideia: durante as romarias feitas por ocasião da Festa da Penha, evento obviamente católico e mariano, seria montada uma tenda em que seriam distribuídos panfletos e feitas pregações aos romeiros que, então, seriam evangelizados segundo os princípios batistas. (http://migre.me/56zsi)

Grande e brilhante idéia, não é? Aproveitamos que uma determinada Igreja é capaz de movimentar uma multidão e, “de grátis”, vendemos o nosso peixe. Aproveitamos que os católicos comemoram a festa de Maria para dizer que celebrar Maria é errado.

A mensagem do Pastor Oliveira de Araújo é clara: os fins justificam os meios e como os católicos não são crentes, seria um dever dos batistas evangelizá-los.

Perguntinha básica: isso é respeitar a fé alheia? Isso é uma postura ética?

Acreditando que a ética não é casuística, mas acompanha sempre o sujeito onde quer que ele vá, não posso acreditar que o Pastor Oliveira Araújo, capaz de uma afronta dessas, seja alguém que faça da ética uma companheira de viagem vida afora.

Pois o referido senhor foi escolhido pelo Excelentíssimo Senhor Governador do Estado do Espírito Santo, Renato Casagrande, como membro do Conselho Estadual de Ética Pública do Estado do Espírito Santo, que tem dentre suas atribuições principais  subsidiar o governador e os secretários de Estado na tomada de decisões, receber denúncias sobre atos de autoridades praticados em contrariedade às normas do Código de Conduta, determinar a realização de diligências que julgar convenientes e submeter ao governador do Estado sugestões de aprimoramento do Código de Conduta. (http://migre.me/56zyv)

E eu cheguei a pensar que a ética era pressuposto para admissão em tal conselho.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Decadence avec elegance


Subir não é fácil e manter-se no alto mais difícil ainda.
Para se posicionar num lugar acima dos outros você pode estudar muito, planejar bastante, analisar o ambiente com profundidade, trabalhar à exaustão, suar a camisa, sofrer algumas injustiças, angariar simpatias aqui, desafetos acolá até que, finalmente, seja reconhecido.
Pode, também, simplesmente torcer e arquitetar meios de fazer com que o outro caia.
É verdade: também fica acima quem, podendo subir um degrau, exaltando suas próprias qualidades, demonstrando seu potencial, opta por puxar para baixo quem esteja num degrau acima com críticas e maledicências.
Se você prefere rebaixar alguém a subir não tem problema, mas já que sua escolha é pela sua própria decadência, tenha ao menos elegância.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Violência


SILÊNCIO, ESTOU FALANDO DE VIOLÊNCIA

Quando digo que a violência é inerente ao ser humano sinto que não falta quem queira me bater.

Digo mais: as crianças são, via de regra, mais violentas que os adultos.

Calma, leitor, não precisa atirar agora.

Violência vem de violar, descumprir, quebrar, romper uma regra pré-estabelecida: Enfiar a mão em vez de usar uma palavra que exprima o sórdido sentimento que provocou o tapa.

É aí que a coisa pega: a violência vem quando a palavra não chega: é a incapacidade que o ser humano tem de compreender as regras, de estabelecer uma relação baseada no código que ele mesmo criou. Quando o código de normas de comunicação não é bem entendido ou utilizado e quando o ser não consegue lidar com o simbólico, é a vez do animal falar mais alto.

E você que é papai ou mamãe preste atenção no seu pimpolho: Você vai perceber que ele não pede gentilmente o brinquedo ao coleguinha (ele não sabe falar, lembra?) ele toma o objeto que deseja e pronto: custe a quem custar e doa em quem doer.


Imagem obtida em http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTV6wIOlDM5opMsu6UM-LjGcHQVseAYyxwov8v02OcDMbkEpWOFMw

terça-feira, 31 de maio de 2011

Ideologia, Escola e Linguagem




IDEOLOGIA

Uma das formas mais seguras e eficazes de que pode se valer um determinado grupo para exercer dominação sobre outro é impor seus ideais, cultura, valores, enfim, sua ideologia.

Segundo CHAUI uma das características da ideologia é gerar a “a suposição de que as idéias existem em si e por si mesmas desde toda a eternidade” sendo, conseqüentemente, inquestionáveis. Afinal, de que vale ao homem questionar o que é pertencente à natureza? Por que razão alguém precisaria se voltar contra algo que sempre foi daquele jeito e que, portanto, é imutável?

Ainda segundo a filósofa “o que torna objetivamente possível a ideologia é o fenômeno da alienação”, conquistado por meio de mecanismos que levem o homem a crer que suas condições reais de existência social não são objeto de sua própria construção, mas obtidas graças a fatores alheios à sua própria vontade, tais como religião, Estado, natureza, “sociedade” e tantos outros normal e naturalmente tratados na terceira pessoa.

O homem, sem se aperceber disto, ignora, por exemplo, o Estado como fruto de seu próprio convívio com outros seres da mesma espécie e passa a personificá-lo, alienando de si o próprio Estado, isto é, perdendo a noção do Estado como fato e o tratando como ente personificado alheio, além de seu próprio ser.

Ainda bebendo em CHAUI é possível dizer que não basta que a classe dominante conceba suas próprias idéias, sendo fundamental que consiga convertê-las em idéias comuns a todos, de tal forma que ninguém seja capaz de questionar a própria origem daquele modo de enxergar a vida.

Quando o trabalho de implantação da ideologia é bem feito ninguém é sequer capaz de imaginar que pensa e age de uma determinada maneira graças ao ideal de outra pessoa. Não é possível perceber a prisão e o estado de alienação a que se está submetido.

A esta altura é possível presumir que a forma de que se vale a classe dominadora para distribuir seus ideais é tomando, primeiro, os meios de comunicação. Presunção equivocada, pois ouso dizer, ainda na companhia de CHAUI, que além da utilização dos meios de comunicação disponíveis, essa distribuição é feita pelos costumes em geral, pela religião e, sobretudo, por intermédio da educação.


DA LINGUAGEM

Parece existir um certo consenso entre os estudiosos do tema no sentido de que o ser humano passa a se distinguir de outros animais (e até mesmo daqueles com características biológicas semelhantes) quando começa a fazer uso da linguagem. Um castor ou um joão-de-barro são capazes de construções relativamente complexas, com utilização de materiais encontrados na natureza; as abelhas possuem um sistema de sinalização capaz de permitir que o grupo localize flores e os primatas, de modo geral, tem condições de utilizar determinados objetos como ferramentas.

Nenhuma outra espécie, a não ser o homem, é capaz de objetivar sua subjetividade e permitir que outro homem tenha consciência do que a subjetividade alheia tentou expressar. É por meio da linguagem que a sociedade se faz, sendo inconcebível a existência de uma sociedade sem ela.

Concordo plenamente com BERGER e LUCKMAN quando afirmam “a vida cotidiana é sobretudo a vida com linguagem [...]” e que a compreensão da linguagem é “essencial para minha compreensão da realidade da vida cotidiana”.

Interessante estudo neste sentido é conduzido por PENNA, que chega mesmo a considerar que “o modo como percebemos o mundo é previamente delimitado pela estrutura lingüística da qual participamos”.

Demonstração de que o sujeito é dependente de uma estrutura simbólica que lhe antecede é fornecida por LEITE, que faço questão de transcrever por sua precisão cirúrgica:

Por exemplo, o nome que uma pessoa recebe ao nascer já tem um sentido dentro de uma cultura, um sentido preestabelecido, logo o sujeito significará seu nome com sentidos que não pertencem a ele. O sujeito será constituído por uma ordem simbólica que lhe é exterior, que já está aí e que lhe é constitutiva.

A linguagem interfere diretamente na formação do sujeito e na sua própria concepção do mundo e da realidade, pelo que não é descabido dizer que conquista um povo quem manipula sua linguagem.

Os motivos que levam alguém (indivíduo ou grupo) a essa busca podem ser os mais variados, mas na base de todos está a ideologia, a normalização de um comportamento social eliminando o outro, numa verdadeira relação de dominação.


EDUCAÇÃO

A pergunta que se faz, então, é o que é educação e para que se presta.

Segundo FUJITA, as primeiras escolas surgiram há aproximadamente 2.400 anos, mas é possível afirmar que desde o ano 4.000 a.C., quando os sumérios teriam desenvolvido a escrita cuneiforme, os pais já transmitiam este saber aos seus filhos.

Ainda conforme FUJITA as primeiras escolas, surgidas no Século 4 a.C., “eram locais onde mestres ensinavam gramática, excelência física, música, poesia, eloqüência, mas não existiam salas de aula no sentido atual”, como se faz notar a partir do Século 12, nos moldes em que criados por “instituições de caridade católicas que ensinavam a ler, escrever, contar e, junto, iam transmitindo as lições do catecismo.”

Sobre o papel da escola hoje, ouso transcrever trecho de artigo de ALMEIDA, que entendo cercar bem todo o tema:

Assim, podemos falar em funções instrucionais, precisamente a imagem mais freqüente da escola por parte da sociedade e das famílias (incremento da informação dos sujeitos, aquisição de conhecimentos curriculares), funções de desenvolvimento e de socialização (desenvolvimento de atitudes e competências, integração social), funções de custódia (suporte a uma família de número reduzido de elementos na qual ambos os pais trabalham, controle social), funções de certificação (empresas e outras instituições tomam os créditos, diplomas e certificados escolares na seleção dos seus quadros) e funções de estratificação social (toda a escolaridade, por níveis sucessivos de exigência e de seleção, é também uma forma de se estratificar uma sociedade).

 Nesta mesma linha de pensamento, se entendemos aprender como “construir conhecimento estável e com significado pessoal”, temos que considerar que “a escola e o professor estejam capazes de desenvolver nos alunos capacidades, atitudes e comportamentos de maior autonomia na regulação dos seus comportamentos escolares” e, mais do que isto, sociais.

Por qualquer ângulo que se observe a questão a resposta é uma só: a educação tem como fim transmitir a uma nova geração o conhecimento construído pelas gerações passadas e o meio de que se vale para isso é a escola.


A TRANSMISSÃO DA IDEOLOGIA

Para que uma classe dominada não seja sequer capaz de questionar o domínio da outra, uma das coisas que precisa ser controlada é sua forma de enxergar o mundo.

Ora, como dito acima, a estrutura lingüística de um povo é determinante na sua forma de perceber a realidade, de tal sorte que quem detém controle sobre a formação da linguagem detém, evidentemente, controle sobre a forma de percepção daquele indivíduo.

Se uma classe detém o poder é de se esperar que tenha controle sobre os meios de transmissão do conhecimento, podendo, assim, impor seu pensamento ideológico.

Se a esta altura eu perguntar ao mais atento leitor quem tem obrigação de dar educação às nossas crianças a resposta certamente será “o governo”, um ente que mesmo despersonalizado é tratado na terceira pessoa como se pessoa fosse.

É isso que faz a ideologia: deixar certo em nossas mentes que determinada coisa é normal e inquestionável.

O “governo”, como representante legitimado da classe dominante, sabe que é assim é cria estruturas administrativas incríveis para que nunca deixe de ser. Alguém é capaz de conceber a educação sem um Ministério da Educação? Uma Secretaria de Educação?

Está montada toda a estrutura para que a ideologia seja transmitida de forma pacífica e indolor.

O problema é que o açodamento de uns acaba interrompendo o fluxo normal, lento e gradual da transmissão da ideologia, levando gente a estirpe de um Arnaldo Niskier a dizer:

A cada dia somos surpreendidos com incríveis inovações na educação brasileira. Tudo é tão estranho que parece uma armação para que continuemos a patinar nas piores classificações internacionais de qualidade do ensino. Cresce a nossa economia, estamos na lista das dez maiores nações do mundo, chega-se a pensar na escolha do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, mas há como que uma força que impele a educação para trás.

Cabe a nós questionar: o que pretende “o governo” quando nos brinda com pérolas como livros escolares que ensinam que “nós pega o peixe” e “os livro ilustrado mais importante estão emprestado”?

Eu sinceramente não sei ao certo, mas não é difícil supor que detrás de uma inocente busca de se afastar um suposto preconceito lingüístico há uma escancarada tentativa de dominação, de imposição de uma ideologia, por meio do controle da linguagem.


CONCLUSÃO

Fica difícil afirmar com precisão o que se pretende com uma flexibilização exacerbada da linguagem, sobretudo quando isso surge a partir de um incentivo, transmitido na escola e com utilização de livros apoiados e fornecidos por quem detém a estrutura administrativa educacional, detendo, conseqüentemente, não só os meios de transmissão do conhecimento, como o próprio poder de normatizar esta transmissão, para que o código simbólico previamente estabelecido seja rompido.

A complacência lingüística seria uma forma de incutir uma complacência generalizada com tudo o que vem de cima?

Estaríamos diante de uma forma velada de flexibilização na nossa percepção da realidade, de modo que não exista diferença entre certo e errado e cada um possa fazer o que bem entende, desde que impinja ao outro a prática de bullying?

Ainda não fechei questão sobre o tema, mas por enquanto penso que aceitar que “nós pega o peixe” é negar que nós pegamos o peixe, o que me remete a LACAN, para quem “desde que existe grafia, existe ortografia”


REFERÊNCIAS

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ALMEIDA, Leandro S.. Facilitar a aprendizagem: ajudar aos alunos a aprender e a pensar. Psicol. Esc. Educ. (Impr.),  Campinas,  v. 6,  n. 2, dez.  2002 .  

BERGER, Peter L.; LUCKMAN, Thomas. A construção social da realidade. 22. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

CHAUI, Marilena. O que é ideologia. Brasília: Brasiliense, 1996.

FUJITA, Luiz. Qual foi a primeira escola? Artigo publicado no site Planeta Sustentável, de responsabilidade da Editora Abril. Disponível em http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/cultura/conteudo_289910.shtml. Acesso 27 MAI 2011.

LACAN, Jacques. Referência não identificada plenamente. Disponível em http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0610593_10_postextual.pdf. Acesso 31 MAI 2011.

LEITE, Márcio Peter de Souza. O simbólico. Artigo publicado no site Márcio Peter – Conexão Lacaniana. Disponível em http://www.marciopeter.com.br/links2/psilacan/psilacasimbolico.html. Acesso em 25 MAI 2011.

NISKIER, Arnaldo. Por uma vida pior. Artigo publicado no site do Jornal A Gazeta na Internet. Disponível em http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2011/05/noticias/a_gazeta/opiniao/859256-arnaldo-niskier-por-uma-vida-pior.html. Acesso em 27 MAI 2011.

PENNA, Antônio Gomes. Percepção e realidade. 7ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

MacBeth - Um caso clássico de estresse.


UM CASO CLÁSSICO DE ESTRESSE


A tragédia Macbeth, de Willian Shakespeare (2003) é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores clássicos de todos os tempos da literatura universal.

O objetivo do presente trabalho é fazer uma análise do estresse de que é acometido a personagem principal, mostrando suas causas e conseqüências, a partir de algumas cenas da tragédia.


A OBRA

Macbeth é um glorioso general do exécito de Duncan, rei da Escócia, que, após uma sangrenta batalha é abordado por três bruxas que lhe revelam uma profecia: além do título de nobreza que já ostentava, o de Barão de Glamis, ele seria, também, Barão de Cawdor e Rei da Escócia, mesmo não guardando consangüinidade com Duncan. Ocorre que as bruxas revelam, também, que filhos de Banquo, outro general escocês, também seriam reis, ainda que Banquo não o fosse.

Dizem as bruxas, ainda, que nenhum homem parido por mulher poderia fazer mal a Macbeth.

De fato Macbeth, ao final da tragédia, é morto por Macduff, arrancado à força do ventre da mãe antes do tempo.


O ESTRESSE

Na cena III do primeiro ato as Irmãs Bruxas do Destino saúdam Macbeth como Barão de Glamis, de Cawdor e como futuro Rei. Banquo, que estava com ele, nota que ele se altera: “Banquo – Meu bom senhor, por que sobressalta-se? Por que parece o senhor temer palavras que soam tão auspiciosas? Em nome da verdade, é fantasioso o senhor ou é realmente aquele que mostra ser por fora?[...]”

Macbeth sobressalta-se, altera seu comportamento, porque percebe que algo pode mudar em sua vida.

Para WEITEN (2002) estresse pode ser definido como “[...] quaisquer circunstâncias que ameaçam ou são percebidas como ameaçadoras do bem-estar do indivíduo e que, portanto, minam as capacidades de enfrentamento do indivíduo [...].

Esta falta de capacidade de enfrentamento é confessada pelo protagonista:

MACBETH – Fiquem, vocês que se pronunciam de modo tão imperfeito. Digam-me mais: com a morte de Sinel, eu sei que sou o Barão de Glamis, mas como é possível eu ser Barão de Cawdor? O Barão de Cawdor está vivo, um próspero cavalheiro. Quanto a eu ser Rei, está é uma probabilidade na qual não se pode acreditar, mais incrível ainda que eu receber o título de Cawdor. Digam de onde vocês têm essa estranha informação, e por que razão, neste maldito pântano, vêm vocês interceptar nosso caminho com tais saudações proféticas? Falem, estou mandando.

Note-se que ao final da fala Macbeth mostra-se furioso, completamente alterado, justamente por não entender como seria possível que as profecias se realizassem. Ele não tinha capacidade de enfrentar a situação e por isto exasperava-se.


Entendimento relativamente semelhante é apresentado por BALONE (2002), que não vê o estresse apenas como uma circunstância percebida como ameaçadora. Segundo ele:

Devemos considerar o estresse uma ocorrência fisiológica e normal no reino animal. O estresse é a atitude biológica necessária para a adaptação do organismo à uma nova situação. Em medicina entende-se o estresse como uma ocorrência global, tanto do ponto de vista físico quanto do ponto de vista emocional. As primeiras pesquisas médicas sobre o estresse estudaram toda uma constelação de alterações orgânicas produzidas no organismo diante de uma situação de agressão.

Fisicamente o estresse aparece quando o organismo é submetido à uma nova situação, como uma cirurgia ou uma infecção, por exemplo, ou, do ponto de vista psicoemocional, à uma situação entendida como de ameaça. De qualquer forma, trata-se de um organismo submetido à uma situação nova (física ou psíquica), pela qual ele terá de lutar para adaptar-se, conseqüentemente, sobreviver. Portanto, o estresse é um mecanismo indispensável para a manutenção da adaptação à vida, indispensável pois, à sobrevivência.

De qualquer forma, a perspectiva de uma nova situação leva o organismo a realizar as alterações necessárias para que possa se adaptar.


O SISTEMA DE REAÇÃO DO ESTRESSE

Quando nosso cérebro, independente de nossa vontade, interpreta alguma situação como ameaçadora (estressante), todo nosso organismo passa a desenvolver uma série de alterações denominadas, em seu conjunto, de Síndrome Geral da Adaptação ao Estresse. Na primeira etapa dessa situação ocorre uma Reação de Alarme, onde todas as respostas corporais entram em estado de prontidão geral, ou seja, todo organismo é mobilizado sem envolvimento específico ou exclusivo de algum órgão em particular. É um estado de alerta geral, tal como se fosse um susto.

Isto ocorre quando Macbeth vê a primeira das profecias se realizando:

MACBETH – [...] Os temores do presente são menores que as horríveis figuras da imaginação. Meu pensamento, este que em si acolhe um assassínio não mais que fantasioso, sacode de tal maneira o reino de minha condição humana e única, que toda ação fica asfixiada em conjecturas, e nada mais existe, a não ser o que não existe.

O protagonista sente seu corpo e seu pensamento pronto para uma ação. Que ação? Ele ainda não sabe, mas está pronto.

Se esse Estresse continua por um período mais longo sobrevém a Segunda fase, chamada de Fase de Adaptação ou Resistência, a qual acontece quando a tensão se acumula. Nesta fase o corpo começa a acostumar-se aos estímulos causadores do Estresse e entra num estado de resistência ou de adaptação. Durante este estágio, o organismo adapta suas reações e seu metabolismo para suportar o Estresse por um período de tempo. Neste estado a reação de Estresse pode ser canalizada para um órgão específico ou para um determinado sistema, seja o sistema cardiológico, por exemplo, ou a pele, sistema muscular, aparelho digestivo, etc.

Quando Macbeth resolve assassinar Duncan e, portanto, mudar seu destino conforme a profecia, sente nos músculos o estresse:

MACBETH – Encontro-me agora determinado, e tensionada está cada fibra de meu corpo, em prontidão para esse terrível feito. Vamos! Que se enganem os outros com nossa aparência mais serena. Aquilo que sabe o coração falso, a cara deve esconder.

Depois de consumado o ato, o assassinato de Duncan, Macbeth aumenta o seu nível de prontidão de tal forma que tudo o apavora: “MACBETH – De onde vêm essas batidas? O que há comigo, quando todo e qualquer barulho me apavora? Que mãos são estas aqui?”

A ansiedade é de tal monta que o assassino de Duncan sequer consegue dormir. O sentimento de medo de ser descoberto mistura-se com a prontidão necessária para que nada de ruim lhe aconteça. De fato, ele, que buscava se adaptar a uma nova realidade, tem mais motivos agora para aumentar sua prontidão, já que se descoberto pelo homicídio pode sofrer conseqüências nefastas.

Entretanto, a energia dirigida para adaptação da pessoa à solicitação estressante não é ilimitada e se o Estresse ainda continuar, o corpo todo pode entrar na terceira fase, o Estado de Esgotamento, onde haverá queda acentuada de nossa capacidade adaptativa.

Entrando neste estado o agora Barão de Gamis e Cawdor afirma:

MACBETH – Tivesse eu morrido uma hora antes desta fatalidade, e eu teria vivido uma vida abençoada. A partir desse instante, nada há de sério na mortalidade. Tudo são ninharias. A Honra e a Graça Divina estão mortas, o vinho da Vida esgotou-se, o que sobra na adega são meras borras, e é delas apenas que podemos nos gabar.

É evidente que Macbeth tenta, com sua fala, disfarçar ser o autor do crime e convencer seu interlocutor de que estava triste com o fato. Mas, apesar disto, não seria exatamente assim que ele estava se sentindo em decorrência do estresse?

Conforme Ballone (2002), a Síndrome Geral de Adaptação descrita por Selye consiste, como vimos, em três fases sucessivas: Reação de Alarme, Fase de adaptação ou Resistência e Fase de Exaustão. Sendo que a última, Fase de Exaustão, é atingida apenas nas situações mais graves e, normalmente, persistentes.

É importante lembrar que o estresse de Macbeth ainda tem fortes razões para continuar. Com efeito, uma das profecias era a de que os filhos de Banquo também se tornariam reis. Era preciso, então, temer Banquo e seus filhos e, mais do que isto, era preciso estar pronto para enfrentar seu antigo amigo:

MACBETH – Pois inimigo meu ele também é. E nossa disputa é tão letal que cada minuto de vida nele ataca-me em minhas partes mais vitais. Muito embora eu pudesse, com a força nua e crua de meu poder, varrê-lo para sempre de minha vista, tão somente com o aval de minha vontade soberana, encontro-me impedido de assim proceder, pois certos amigos temos os dois em comum, e desses amigos não posso dispensar a afeição.

Macbeth sentia o estresse consumindo suas vísceras. Cada segundo de vida em Banquo representava para ele um segundo de prontidão. Tal prontidão, que parecia não cessar nunca, chegava mesmo a causar-lhe males físicos e até mesmo a perda de apetite.

Com a morte do filho de Banquo, que, segundo a profecia, seria rei no lugar de Macbeth, seu nível de estresse abaixa um pouco e ele consegue se alimentar e sente-se até mesmo mais saudável: “[...] Agora, que a boa digestão preste homenagem ao apetite, e que a saúde homenageie a ambos”.


LIDANDO COM O ESTRESSE

Macbeth usou, para se livrar do seu estresse, a eliminação das causas, ou seja, matou ou mandou matar todos aqueles que, em sua ótica, representavam risco à sua integridade.

Quando soube, no entanto, que isto não tinha bastado, já que os filhos de Duncan eram hospedados por Edward, na Inglaterra, voltou a ter preocupações e, portanto, a entrar em estado de prontidão. Neste momento ele busca uma outra alternativa, chamada por Ellis (apud WEITEN, 2002) de sistema de crenças. Para ele a questão estava em como um evento é interpretado pelo sujeito e, mudando-se a forma de analisar o evento, altera-se o nível do estresse.

Macbeth precisava, para lidar com seu estresse, ter certeza de que não haveria motivos para temer. Procura, então, as três bruxas que invocam fantasmas que dizem a Macbeth que nenhum homem nascido de mulher poderia lhe fazer mal.

A partir do momento em que passou a se acreditar indestrutível por seres humanos, Macbeth relaxou (reduziu seu estado de prontidão). Talvez tenha sido este o seu erro: “MACDUFF – Agora, desespera-te com teu feitiço, e permite que te diga o próprio Anjo de quem és escravo: ‘Do ventre de sua mãe Macduff foi arrancado à força, antes do tempo’”. Macduff não era homem nascido de mulher, mas arrancado dela antes do tempo.

Macduff arranca a cabeça de Macbeth e devolve o trono a quem de direito.


REFERÊNCIAS

BALONNE, G. J. Estresse, PsiqWeb Psiquiatria Geral c2002. Disponível em <http://www.psiqweb.med.br/cursos/stress1.html>. Acesso em 09 dez. 2003.

WEITEN, W. Introdução à psicologia: temas e variações. São Paulo: Pioneira Thompson, 2002.

SHAKESPEARE, W. Macbeth, in Tragédias. São Paulo: Nova Cultural, 2003.